Putin quer metade da Europa. Nós só queremos duche de água quente?

Se a Europa não se der ao respeito através da reconfiguração da sua política de segurança e energética, todos os países do ex-Pacto de Varsóvia sentirão um medo constante e, nesse medo, as forças extremistas e pró-russas ganharão ainda mais peso, criando assim o sonho de Putin: dividir a Europa nas velhas fronteiras da CEE

Putin é como o PCP: trinta anos depois, recusa aceitar o desfecho da guerra fria, o colapso do comunismo e a derrota da Rússia. O que tem ele para oferecer? Um modelo político de sucesso? Um modelo económico de sucesso? Uma sociedade pujante? Não. A Rússia é um grande poder em decadência que se agarra a esta bravata militar para esconder precisamente a sua decadência. Só há uma coisa a funcionar: gás e petróleo, que alimentam uma súcia de cleptocratas que compram clubes de futebol na Europa e, claro, o aparato militar. O resto é um desastre. Pior, é um desastre amordaçado. E uma potência em declínio pode ser mais perigosa do que uma potência ascendente, porque nada tem a perder; o caos dá-lhe estatuto, protagonismo, ilusões de grandeza, ego.

E o problema é que o ego russo não aceita a vontade dos povos da Europa de Leste. Do Báltico aos Balcãs, os povos escolheram abraçar o modelo ocidental, porque o consideram superior ao modelo russo. 1989 foi feito pelo povo local, não pelo Ocidente. Foi o povo que em sucessivas eleições apoiou políticos que queriam e querem a UE e a NATO. O Ocidente foi imprudente ao aceitar este desejo? Mas fazíamos o quê? Deixámos todas estas nações num vazio à mercê do que se está agora a ver? É por isso que – na visão russa – uma democracia na Ucrânia é inaceitável, porque põe em causa a ideia de que a democracia não é para os russos, põe em causa a ideia de que a Rússia só pode ser controlada por um Czar.

Portanto, se nós, europeus, queremos defender o multilateralismo, se queremos defender os princípios que têm mantido o mundo acima da anarquia e das guerras do passado, então temos de recuperar a sério o espírito da NATO e dar à UE uma dimensão de potência clássica que ela nunca teve. Em década e meia, esta é a terceira guerra de Putin: Geórgia, Crimeia e agora Shakhtar. Dando a Ucrânia como perdida, a pergunta agora é só uma: iremos fazer o quê quando Putin direcionar a sua agressão contra Estados que já estão na UE e na NATO, como as repúblicas bálticas? Estamos a fazer tudo para assegurar a paz de espírito e a paz propriamente dita de todas as democracias do leste Europeu?

Se a reação europeia a esta agressão na Ucrânia não for forte e decidida, se a Europa não se der ao respeito através da reconfiguração da sua política de segurança e energética, todos os países do ex-Pacto de Varsóvia sentirão um medo asfixiante e, nesse medo, as forças extremistas e pró-russas ganharão ainda mais peso, criando assim o sonho de Putin: dividir a Europa nas velhas fronteiras da CEE. Putin sabe o que quer na geopolítica. E nós? Reduzimos a geopolítica e a defesa de valores ao nosso duche de água aquecida com gás russo?

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